
Como podemos nos fazer humanos num mundo onde o exercício da humanidade sempre fica em segundo plano?
Vivemos num constante paradoxo: precisamos desenvolver individualidade, vivendo em coletividade. E nesse instante surge a angústia. E o que significa a angústia? Do latim angustia, significa aperto, constrição; de anguere, apertar, sufocar. Para os filósofos existencialistas, a angústia é uma experiência metafísica , através do qual o homem toma consciência do ser. Em síntese, angústia é desespero. E o homem só sai do desespero quando orientando-se para si próprio, querendo ser ele próprio.
Também podemos dizer que a angústia significa decisão. Quando nos sentimos angustiados, precisamos nos decidir sobre alguma coisa. Estamos diante de dois caminhos e não sabemos qual seguir. A partir do momento que nos decidimos, a angústia se dissipa.
Para Kierkegaard, filósofo e teólogo dinamarquês, a verdadeira existência humana precisa ser singular. Somente o singular humano tem consciência da sua singularidade, pois o pensar é doloroso e é uma forma de provocar a angústia. Como ser eu vivendo em coletividade? Em consequência disso a verdade é subjetiva e bem longe de ser a “adequação da mente com a coisa” é a adequação do objeto com a nossa subjetividade, com as mais profundas exigências do indivíduo que somos e queremos ser. Kierkegaard define essa angústia como “síncope da liberdade”. Assim, liberdade e angústia se unem na existência. O homem é livre, em sua vida, para optar e escolher. No entanto, não há opção sem angústia. Ao escolhermos deixamos de lado outras coisas sem ter certeza de que essa escolha foi a melhor ou será bem sucedida. É um salto no escuro. Não podemos ter certeza a priori de que a escolha é boa, como citei acima. Mas essa escolha não é feita arbitrariamente. Ela deve ser motivada pela busca da verdade.
O existir autêntico supõe compromisso e risco. Na nossa vida concreta buscamos uma verdade vivida, e essa vai expressar-se em nosso comportamento cotidiano. Por isso a verdade é fruto da ação e não de um pensamento teórico, segundo Kierkegaard. A angústia existencial não nos leva à solidão, ao individualismo, à incomunicabilidade. Esse existir autêntico nos faz buscar o singular, mas não ocorre sem dor. Ninguém é ele mesmo sem antes querer sê-lo em sua liberdade. Daí a angústia, porque ninguém pode fugir a esse sentimento que acompanha toda escolha.
Se tratando do desenvolvimento humano sobre sua individualidade, acabamos nos perdendo. Não sabemos discernir até onde vai a nossa singularidade diante da coletividade que vivemos. Pois, precisamos nos relacionar com as necessidades e vontades dos outros, sem esquecermos das nossas. Quando estamos diante de uma situação, em que precisamos discernir entre as nossas vontades e as dos outros é que nos sentimos angustiados. Como vamos saber até onde podemos ir sem desrespeitar o outro? Exemplifiquemos: duas pessoas que estão com fome e tem somente um pão. Se não repartimos o pão com a outra pessoa, estaremos sendo egoístas. Se oferecemos o pão ao outro e ficamos com fome, estaremos sendo generosos. Será a melhor forma de solucionarmos esse problema? Acredito que não. O ideal seria dividir o pão, e ambos saciariam a sua fome.
Esse exemplo citado acima é um tanto simples. Mas se levarmos e inserirmos no âmbito dos relacionamentos interpessoais, a arte de se relacionar ficaria bem melhor.
Por diversas vezes nos angustiamos, pois, não sabemos se devemos ou não agir de certa forma com as pessoas que nos relacionamos e que amamos. Acabamos nos perdendo. Porque ou nos doamos demais ou não nos doamos. Egoístas versus generosos.
Volto a dizer que, o ideal seria dividir esse amor, como o exemplo do pão. Para que fique mais claro, citarei uma parábola de Jesus onde ele diz o seguinte: “Amai-vos uns aos outros como a si mesmo”. Ou seja, para amarmos outra pessoa é necessário que nos amemos primeiro, para posteriormente amar o próximo. Mas infelizmente fazemos o contrário. Amamos primeiro os outros , para assim sermos amados e nos amarmos.
Jogamos a responsabilidade de nossas vidas nas mãos dos outros e assim elas podem fazer conosco o que quiserem. Viramos presas fáceis. E nesse momento é instaurada a angústia de ser humano. Ficamos divididos e logo angustiados, pois não sabemos como agir com os demais. Não sabemos onde começa a nossa singularidade e termina a do outro. Desrespeitamos a nossa individualidade em prol da coletividade.
E não existe outra coisa para o fracasso humano senão a falta de fé do homem em seu verdadeiro ser.
Michelle Mendes
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